Um passeio crítico por sete micro-histórias sobre jornalismo, TV, rádio, redes sociais e os dilemas de credibilidade, linguagem e poder no Brasil.
LEVEL/WORDCOUNT: C1 / ~460–500 words each story (7 stories)
História 1 (PT): O Plantão que Não Terminava
Na redação, o relógio parecia uma esteira: sempre girando, nunca chegando. Camila, editora de tempo real, tinha duas telas abertas — o painel de audiência e o grupo de fontes. Quando o apresentador do telejornal pediu “algo forte para segurar”, ela sentiu a velha tensão: informar sem virar espetáculo.
A notícia era confusa: um vídeo circulava com legendas que afirmavam uma denúncia grave. O problema não era só a origem duvidosa, mas o modo como o conteúdo já vinha embalado, pronto para virar “verdade” antes de virar verificação. Camila pediu confirmação, mas o repórter de rua respondeu que “todo mundo já está dando”. Nesse “todo mundo”, cabia um país inteiro e também o medo de ficar para trás.
Ela lembrou do manual interno: duas fontes independentes, checagem de data, localização, contexto. Só que o manual não sentia o peso do botão “publicar”. Para ganhar minutos, ela sugeriu uma nota curta, com linguagem precisa: “circula”, “a redação apura”, “sem confirmação”. Um produtor reclamou: “Isso não dá clique”. Camila respirou e respondeu que clique sem confiança é empréstimo com juros altos.
Quando, enfim, chegou a confirmação, veio com uma nuance que desmontava a narrativa do vídeo. Não era uma “denúncia escondida”, mas um recorte de uma fala antiga, deslocada de propósito. Camila mandou publicar a versão completa, com a explicação do truque e um quadro “o que sabemos / o que não sabemos”. Um colega ironizou: “Vai viralizar? Duvido”. Ela não discutiu.
À noite, no estúdio, o apresentador abriu o bloco dizendo que “a pressa é inimiga da verdade”. Camila ouviu e sorriu sem orgulho, porque sabia que amanhã a esteira recomeçaria. Ao sair, viu no celular mensagens de pessoas agradecendo por não terem “comprado” a mentira. Não era trending topic, mas era um tipo raro de audiência: a que fica.
Story 1 (EN): The Breaking News That Wouldn’t End
In the newsroom, the clock felt like a treadmill: always moving, never arriving. Camila, the real-time editor, had two screens open — the audience dashboard and the sources’ group chat. When the TV anchor asked for “something strong to hold people,” she felt the familiar tension: inform without turning it into a show.
The story was messy: a video was spreading with captions claiming a serious allegation. The problem wasn’t only the dubious origin, but the way the content came pre-packaged, ready to become “truth” before becoming verification. Camila asked for confirmation, but the field reporter replied that “everyone is already running it.” In that “everyone,” an entire country fit — and also the fear of being left behind.
She remembered the internal handbook: two independent sources, date checks, location, context. But the handbook didn’t feel the weight of the “publish” button. To buy time, she suggested a short note with precise language: “circulating,” “the newsroom is investigating,” “unconfirmed.” A producer complained: “That won’t get clicks.” Camila breathed and said that clicks without trust are a loan with high interest.
When confirmation finally arrived, it came with a nuance that dismantled the video’s narrative. It wasn’t a “hidden denunciation,” but a deliberately displaced clip of an old statement. Camila published the full version, explained the trick, and added a box: “what we know / what we don’t know.” A colleague joked, “Will it go viral? Doubt it.” She didn’t argue.
That night, in the studio, the anchor opened the segment by saying “speed is the enemy of truth.” Camila listened and smiled without pride, because she knew the treadmill would restart tomorrow. As she left, she saw messages from people thanking them for not “buying” the lie. It wasn’t trending, but it was a rare kind of audience: the kind that stays.
Help
How to Use the Audio
The audio is designed to help you improve your Brazilian Portuguese listening skills and pronunciation. You can use it in two ways:
- Before reading: Listen to understand rhythm, intonation, and natural Brazilian speech.
- After reading: Listen again to compare pronunciation and improve fluency.
Vocabulary
- redação – newsroom
- plantão – breaking news shift
- audiência – audience / ratings
- fonte – source
- apurar – to verify / to investigate
- nota – short news note
- linguagem precisa – precise wording
- recorte – clipped excerpt
- nuance – nuance
- confiar – to trust
Grammar
Uso de “parecer” + infinitivo
Em C1, “parecer” ajuda a construir uma avaliação cuidadosa, evitando afirmações absolutas.
A estrutura “parecia + infinitivo/expressão” comunica percepção contextual, não certeza factual.
É útil em escrita jornalística quando o narrador descreve sensação ou impressão.
Atenção ao tom: pode soar sutilmente crítico ou irônico conforme o contexto.
Examples:
Na redação, o relógio parecia uma esteira: sempre girando, nunca chegando.
Camila ouviu e sorriu sem orgulho, porque sabia que amanhã a esteira recomeçaria.
Não era trending topic, mas era um tipo raro de audiência: a que fica.
Conectores concessivos: “mas”, “só que”, “mesmo assim”
Conectores concessivos organizam contraste entre expectativa e realidade, argumento e contra-argumento.
Em textos longos, eles criam cadência lógica e coesão, orientando o leitor.
“Só que” tende a ser mais coloquial e dramático; “mas” é neutro; “mesmo assim” reforça persistência.
Em C1, variar conectores evita repetição e melhora a precisão retórica.
Examples:
Só que o manual não sentia o peso do botão “publicar”.
Um produtor reclamou: “Isso não dá clique”. Camila respirou e respondeu…
Não era trending topic, mas era um tipo raro de audiência: a que fica.
Idiomatic Expressions
-
ficar para trás – meaning
Example: …também o medo de ficar para trás. -
segurar (a audiência) – meaning
Example: …“algo forte para segurar”. -
com juros altos – meaning
Example: Clique sem confiança é empréstimo com juros altos. -
comprar uma mentira – meaning
Example: …agradecendo por não terem “comprado” a mentira. -
dar clique – meaning
Example: “Isso não dá clique”.
Cultural Insights
- Telejornal e “plantão”
No Brasil, “plantão” remete a cobertura urgente, com linguagem de excepcionalidade.
Isso aumenta a sensação de risco e pode acelerar a circulação de informações incompletas.
O público reconhece o formato e reage emocionalmente, mesmo antes de entender o contexto. - Pressão por cliques
Métricas de audiência influenciam decisões editoriais em redações digitais e tradicionais.
A disputa por minutos pode favorecer manchetes fortes e recortes simplificados.
Equilibrar relevância pública e performance virou dilema central. - Desinformação “pré-embalada”
Vídeos com legenda, cortes e estética “jornalística” circulam como se fossem provas.
A forma, muitas vezes, convence antes do conteúdo, criando “verdade por aparência”.
Por isso, checagem de contexto é tão crucial quanto checar o fato bruto. - Linguagem de cautela
Expressões como “circula”, “a redação apura” e “sem confirmação” são marcas de apuração.
Elas protegem o público de certezas falsas e preservam credibilidade institucional.
Ao mesmo tempo, podem ser lidas como “fraqueza” por quem busca afirmação rápida. - Confiança como capital
Em ambientes polarizados, manter confiança é mais difícil e mais valioso.
A credibilidade se constrói lentamente e se perde em um único erro muito visível.
Por isso, “não viralizar” pode ser estratégia de longo prazo.
10 Questions
- Por que Camila sente tensão quando pedem “algo forte” para o telejornal? (resposta)
- Qual é o principal problema do vídeo que circulava? (resposta)
- O que o repórter de rua argumenta para publicar rápido? (resposta)
- Quais checagens Camila lembra do manual interno? (resposta)
- Como Camila tenta ganhar tempo sem afirmar o que não sabe? (resposta)
- O que o produtor critica na nota cautelosa? (resposta)
- Qual nuance desmonta a narrativa do vídeo? (resposta)
- Que recurso Camila adiciona para esclarecer o público? (resposta)
- Por que Camila sorri “sem orgulho” ao ouvir o apresentador? (resposta)
- Qual “tipo raro de audiência” aparece no final? (resposta)
Multiple Choice
|
|
True or False
- Camila decide publicar a denúncia como certeza para “segurar” a audiência. (resposta)
- O vídeo tinha uma estética pronta para convencer antes da verificação. (resposta)
- O repórter diz que ninguém mais está falando do assunto. (resposta)
- Camila usa linguagem cautelosa para não afirmar o que ainda não foi confirmado. (resposta)
- Depois da confirmação, descobre-se que o vídeo era um recorte antigo fora de contexto. (resposta)
- No final, a história sugere que credibilidade pode valer mais que viralização. (resposta)
Retell the Story
Reescreva a história com suas próprias palavras, mantendo o conflito entre velocidade e credibilidade e explicando como Camila decidiu agir.
História 2 (PT): A Entrevista e o Corte Invisível
Davi era produtor de um podcast jornalístico que cresceu rápido demais, como se a internet tivesse decidido adotá-lo. O programa tinha uma promessa simples: conversar com calma, sem gritaria. Ainda assim, o algoritmo parecia exigir conflito, e a equipe, pouco a pouco, foi aprendendo a “temperar” os episódios com tensão.
Numa manhã, entrou no estúdio uma deputada conhecida por frases calculadas. Ela sorriu para o microfone como quem sorri para uma câmera: com precisão. Davi preparou perguntas longas, com contexto, mas a entrevistada devolvia respostas curtas, desviando pela borda. Quando ela soltou uma afirmação duvidosa, Davi pediu detalhes. Ela respondeu: “Isso está aí, é só procurar”. O “aí” era um lugar sem endereço.
No fim, a gravação virou um mosaico: trinta minutos de conversa e duas horas de “off” — orientações, pausas, pedidos para refazer uma frase. Na edição, a tentação apareceu: escolher o trecho mais explosivo, cortar a hesitação do apresentador, deixar a deputada parecer mais segura do que foi. “Assim rende”, disse um colega. Davi encarou a linha do tempo e pensou que um corte pode ser uma faca ou um curativo.
Ele decidiu manter o momento em que a entrevistada se contradizia e, sobretudo, manter a pergunta seguinte — aquela que dava ao ouvinte a chave do contexto. No episódio final, colocou também uma nota de transparência: “Este conteúdo foi editado por clareza; não alteramos o sentido das falas”. Alguns comentários reclamaram que “ficou lento”. Outros disseram que, pela primeira vez, entenderam o truque de uma resposta vazia.
Dias depois, um vídeo curto do episódio viralizou nas redes: justamente o recorte que Davi havia recusado. Alguém postou com legenda agressiva, como se o podcast tivesse caído na armadilha. Davi respirou fundo, publicou o link do episódio inteiro e escreveu: “O corte muda tudo. A conversa, não”. Não virou a maior trend, mas virou um pequeno anticorpo.
Story 2 (EN): The Interview and the Invisible Cut
Davi was a producer for a journalistic podcast that grew too fast, as if the internet had decided to adopt it. The show had a simple promise: calm conversation, no shouting. Even so, the algorithm seemed to demand conflict, and the team gradually learned to “season” episodes with tension.
One morning, a congresswoman known for carefully crafted phrases entered the studio. She smiled at the microphone like someone smiles at a camera: precisely. Davi prepared long, contextual questions, but she answered briefly, dodging along the edges. When she made a dubious claim, Davi asked for details. She replied, “It’s out there, just look it up.” That “out there” was a place with no address.
In the end, the recording became a mosaic: thirty minutes of conversation and two hours of “off” — guidance, pauses, requests to redo a sentence. In editing, the temptation appeared: choose the most explosive excerpt, cut the host’s hesitation, make the congresswoman seem more confident than she was. “That performs,” a colleague said. Davi stared at the timeline and thought a cut can be a knife or a bandage.
He decided to keep the moment when she contradicted herself and, above all, to keep the next question — the one that gave listeners the key context. In the final episode, he also added a transparency note: “This content was edited for clarity; we did not change the meaning of the statements.” Some comments complained it was “too slow.” Others said that for the first time they understood the trick of an empty answer.
Days later, a short video from the episode went viral on social media: exactly the excerpt Davi had refused. Someone posted it with an aggressive caption, as if the podcast had fallen for the trap. Davi took a deep breath, shared the full episode link, and wrote: “The cut changes everything. The conversation doesn’t.” It didn’t become the biggest trend, but it became a small antibody.
Help
How to Use the Audio
The audio is designed to help you improve your Brazilian Portuguese listening skills and pronunciation. You can use it in two ways:
- Before reading: Listen to understand rhythm, intonation, and natural Brazilian speech.
- After reading: Listen again to compare pronunciation and improve fluency.
Vocabulary
- produtor – producer
- promessa – promise
- algoritmo – algorithm
- desviar – to dodge / to deflect
- afirmação – claim / statement
- mosaico – mosaic
- edição – editing
- trecho – excerpt
- nota de transparência – transparency note
- viralizar – to go viral
Grammar
Pronome demonstrativo “isso” como referência vaga
Em português, “isso” pode apontar para uma ideia anterior, mas também pode servir como resposta evasiva.
Em C1, observar essa escolha ajuda a interpretar estratégias discursivas e jogos de responsabilidade.
A vaguidade aparece com verbos como “estar”, “ser”, “ter”: “Isso está aí”, “Isso é óbvio”.
A técnica do entrevistador é pedir especificação: “Onde? Em que documento? Quando?”.
Examples:
Quando ela soltou uma afirmação duvidosa, Davi pediu detalhes.
Ela respondeu: “Isso está aí, é só procurar”.
O “aí” era um lugar sem endereço.
Orações relativas com “que” para acrescentar precisão
Em C1, orações com “que” refinam o texto, adicionando informação sem quebrar o ritmo.
Elas podem definir (“a pergunta que dava ao ouvinte a chave”) ou comentar (“o trecho que Davi havia recusado”).
Esse recurso aumenta nuance e reduz ambiguidade.
O cuidado é não empilhar muitas relativas na mesma frase, para manter clareza.
Examples:
…manter a pergunta seguinte — aquela que dava ao ouvinte a chave do contexto.
…um vídeo curto do episódio viralizou… justamente o recorte que Davi havia recusado.
…um pequeno anticorpo.
Idiomatic Expressions
-
crescer rápido demais – meaning
Example: Davi era produtor de um podcast jornalístico que cresceu rápido demais… -
temperar (com tensão) – meaning
Example: …aprendendo a “temperar” os episódios com tensão. -
pela borda – meaning
Example: …devolvia respostas curtas, desviando pela borda. -
cair na armadilha – meaning
Example: …como se o podcast tivesse caído na armadilha. -
mudar tudo – meaning
Example: O corte muda tudo. A conversa, não.
Cultural Insights
- Podcast como “nova bancada”
Podcasts no Brasil viraram espaço de entrevista longa, competindo com TV e rádio.
O formato favorece contexto, mas sofre pressão por cortes curtos para redes sociais.
Isso cria uma disputa entre profundidade e circulação. - Política e frase calculada
Entrevistados públicos treinam respostas para minimizar risco e maximizar controle de narrativa.
Respostas vagas transferem o ônus da prova para o público (“é só procurar”).
Jornalismo de qualidade insiste em detalhes verificáveis. - O poder do recorte
Clipes curtos circulam mais do que episódios completos, e podem inverter o sentido do diálogo.
No ecossistema digital, quem edita também interpreta — e, às vezes, manipula.
Por isso, transparência editorial virou valor estratégico. - Comentários como termômetro
Em plataformas, comentários misturam crítica legítima, torcida e ataques coordenados.
Produtores precisam ler o retorno sem virar reféns do barulho.
A curadoria de respostas públicas também é parte da comunicação. - “Anticorpos” informacionais
Explicar o truque (como a resposta vazia funciona) ajuda o público a reconhecer padrões.
Educação midiática nasce, às vezes, de escolhas pequenas de edição e linguagem.
Isso fortalece o repertório crítico coletivo.
10 Questions
- Qual era a promessa principal do podcast de Davi? (resposta)
- O que a equipe passa a fazer por causa do algoritmo? (resposta)
- Como a deputada responde a perguntas longas e contextualizadas? (resposta)
- O que significa o “aí” na frase “Isso está aí”? (resposta)
- Por que a gravação vira um “mosaico”? (resposta)
- Qual é a tentação na hora da edição? (resposta)
- O que Davi decide manter no episódio final? (resposta)
- Que nota Davi inclui para o público? (resposta)
- O que viraliza depois? (resposta)
- Como Davi reage ao recorte viral? (resposta)
Multiple Choice
|
|
True or False
- O podcast nasceu com a proposta de entrevistas rápidas e agressivas. (resposta)
- A deputada usa respostas curtas para manter controle do discurso. (resposta)
- Davi escolhe o trecho mais explosivo e remove o contexto para “render”. (resposta)
- A nota de transparência explica que houve edição por clareza, sem mudar o sentido. (resposta)
- O clipe que viraliza é o mesmo tipo de recorte que Davi evitou. (resposta)
- Compartilhar o episódio completo pode funcionar como “anticorpo” contra recortes manipuladores. (resposta)
Retell the Story
Reescreva a história com suas próprias palavras, destacando o papel da edição e como um recorte pode alterar o sentido de uma entrevista.
História 3 (PT): O Meme que Virou Manchete
No grupo da família, a piada chega antes da notícia. Marina, professora de literatura, aprendeu isso durante uma eleição e nunca mais desaprendeu. Numa quarta-feira qualquer, alguém enviou um meme com um apresentador de TV “confirmando” algo absurdo, com letras enormes e um selo improvisado de “URGENTE”.
Ela riu por reflexo, depois travou. A montagem era boa demais: usava o cenário real de um programa popular e imitava o estilo gráfico do canal. Só que havia um detalhe: a boca do apresentador não combinava com o áudio. Marina mostrou ao sobrinho, que respondeu: “Ah, tia, é só meme”. Mas, no mesmo dia, ela viu a “piada” virar post sério em outra rede, com gente pedindo providências e xingando autoridades.
Marina decidiu fazer um experimento: em vez de corrigir com superioridade, pediu que as pessoas descrevessem o que estavam vendo. “Qual é a fonte? Onde foi ao ar? Em que data?” Alguns ficaram irritados. Outros, curiosos, começaram a notar as costuras. Um primo, que sempre compartilhava qualquer coisa, perguntou se “dava para confiar em algum jornal”. Marina disse que confiança não é pacote fechado, é prática: conferir, comparar, esperar.
Na escola, ela transformou o caso em aula. Levou três imagens: a do meme, a de uma reportagem verdadeira do mesmo canal e um print de uma conta falsa. Pediu que a turma listasse diferenças — tipografia, qualidade do áudio, ausência de link, falta de contexto. Os alunos, acostumados a navegar rápido, ficaram surpresos com o quanto tinham “passado por cima” de sinais.
Na sexta, um portal publicou uma nota esclarecendo a manipulação. O estrago, porém, já tinha circulado. Marina viu o meme reaparecer com outra legenda, como se a checagem fosse “censura”. Ela não discutiu no atacado. Respondeu no varejo: uma pergunta por vez, um link por vez, uma dúvida por vez. Não ganhou a briga do dia, mas ampliou o silêncio onde a mentira costuma gritar.
Story 3 (EN): The Meme That Became a Headline
In the family group chat, the joke arrives before the news. Marina, a literature teacher, learned that during an election and never unlearned it. On an ordinary Wednesday, someone sent a meme showing a TV anchor “confirming” something absurd, with huge letters and a makeshift “URGENT” stamp.
She laughed by reflex, then froze. The edit was too good: it used the real set of a popular show and imitated the channel’s graphic style. But there was a detail: the anchor’s mouth didn’t match the audio. Marina showed it to her nephew, who replied, “Come on, aunt, it’s just a meme.” Yet the same day she saw the “joke” become a serious post on another platform, with people demanding action and insulting authorities.
Marina decided to run an experiment: instead of correcting people with superiority, she asked them to describe what they were seeing. “What’s the source? Where did it air? On what date?” Some got irritated. Others, curious, started noticing the seams. A cousin, who always shared anything, asked whether “you can trust any newspaper.” Marina said trust isn’t a sealed package; it’s a practice: check, compare, wait.
At school, she turned the case into a lesson. She brought three images: the meme, a real report from the same channel, and a screenshot of a fake account. She asked the class to list differences — typography, audio quality, no link, missing context. The students, used to fast scrolling, were surprised by how many signals they had “skipped over.”
On Friday, a news site published a note explaining the manipulation. The damage, however, had already spread. Marina saw the meme reappear with another caption, as if fact-checking were “censorship.” She didn’t argue in bulk. She replied retail-style: one question at a time, one link at a time, one doubt at a time. She didn’t win the battle of the day, but she expanded the quiet where lies usually shout.
Help
How to Use the Audio
The audio is designed to help you improve your Brazilian Portuguese listening skills and pronunciation. You can use it in two ways:
- Before reading: Listen to understand rhythm, intonation, and natural Brazilian speech.
- After reading: Listen again to compare pronunciation and improve fluency.
Vocabulary
- montagem – edit / manipulation
- cenário – set / scenery
- costura – seam / stitch (sign of editing)
- providências – measures / action
- autoridade – authority
- experimento – experiment
- tipografia – typography
- checagem – fact-checking
- censura – censorship
- no atacado/no varejo – in bulk/one by one
Grammar
Período composto com “depois” para criar contraste
“Depois” pode organizar um giro de percepção: reação inicial e revisão crítica em seguida.
Em C1, esse recurso ajuda a mostrar mudança de interpretação sem explicitar demais.
Também é útil para narrativas de mídia, onde a primeira impressão costuma ser enganosa.
A pausa com vírgula ou travessão intensifica o efeito.
Examples:
Ela riu por reflexo, depois travou.
Marina disse que confiança não é pacote fechado, é prática: conferir, comparar, esperar.
O estrago, porém, já tinha circulado.
Uso de perguntas diretas como estratégia discursiva
Perguntas diretas podem funcionar como ferramenta de análise e de mediação de conflito.
Em vez de acusar, o narrador pede especificidade, o que desloca a conversa para evidências.
Em C1, isso demonstra controle retórico e pode reduzir polarização.
O cuidado é manter tom neutro para não soar inquisitório.
Examples:
“Qual é a fonte? Onde foi ao ar? Em que data?”
“dava para confiar em algum jornal”
“O que estão vendo?”
Idiomatic Expressions
-
chegar antes – meaning
Example: No grupo da família, a piada chega antes da notícia. -
rir por reflexo – meaning
Example: Ela riu por reflexo, depois travou. -
virar post sério – meaning
Example: …ela viu a “piada” virar post sério em outra rede… -
passar por cima – meaning
Example: …surpresos com o quanto tinham “passado por cima” de sinais. -
briga do dia – meaning
Example: Não ganhou a briga do dia…
Cultural Insights
- Grupo de família como canal de “notícia”
No Brasil, grupos de WhatsApp/Telegram são grandes vetores de informação e desinformação.
Humor e indignação viajam rápido, e o “encaminhado” vira selo informal de credibilidade.
Isso altera a ordem: primeiro a emoção, depois a checagem. - Estética jornalística como disfarce
Montagens imitam cenários, tarjas e tipografias de TV para parecerem autênticas.
O público tende a confiar no “visual familiar”, mesmo quando há sinais técnicos de fraude.
Educação midiática inclui ler forma, não só conteúdo. - Aula como laboratório de mídia
Professores frequentemente usam casos reais para ensinar leitura crítica e argumentação.
Comparar prints e identificar detalhes treina atenção e pensamento analítico.
Essa prática vira competência cívica, não só escolar. - Checagem como “censura”
Em ambientes polarizados, desmentidos podem ser reinterpretados como perseguição.
Isso cria imunidade a correções, mantendo boatos vivos com novas legendas.
Responder com perguntas e evidências pode reduzir resistência. - Responder “no varejo”
Estratégias de diálogo individual (um por um) funcionam melhor que debates públicos amplos.
Pequenas conversas podem mudar hábitos de compartilhamento com menos confronto.
É lento, mas cria confiança sustentável.
10 Questions
- O que Marina percebe sobre o grupo da família? (resposta)
- Qual detalhe faz Marina desconfiar do meme? (resposta)
- Como o sobrinho interpreta o meme? (resposta)
- O que acontece com a “piada” no mesmo dia? (resposta)
- Qual estratégia Marina usa para não soar superior? (resposta)
- O que Marina diz sobre confiança em jornal? (resposta)
- Que materiais Marina leva para a aula? (resposta)
- Quais sinais os alunos analisam? (resposta)
- Por que a nota do portal não resolve tudo? (resposta)
- O que significa “responder no varejo”? document.querySelectorAll(‘.tab-group’).forEach(group => { const buttons = group.querySelectorAll(‘.tab-btn’); const contents = group.querySelectorAll(‘.tab-content’); buttons.forEach(button => { button.addEventListener(‘click’, () => { buttons.forEach(btn => btn.classList.remove(‘active’)); contents.forEach(content => content.classList.remove(‘active’)); button.classList.add(‘active’); document.getElementById(button.dataset.tab).classList.add(‘active’); }); }); });



