No sábado, fora do trabalho, ele percebe como a passiva e o impessoal aparecem em conflitos pequenos (“foi dito que…”, “disseram que…”) e tenta parar de espalhar boato, pedindo fonte e falando no presente com clareza.
LEVEL/WORDCOUNT: B2 / 520 words
“Disseram que” é quase ninguém
No sábado, eu encontrei Marcelo para um café rápido. A gente estava bem desde a conversa dos “pingos nos is”, e eu queria manter a amizade leve. Só que, dez minutos depois de sentar, ele veio com uma frase que eu já conhecia: “Disseram que vai ter corte de pessoal lá na sua empresa.”
Eu senti a ansiedade subir como se alguém tivesse aberto uma torneira. “Disseram que” é perigoso porque não tem rosto. Não dá para perguntar, não dá para checar, só dá para imaginar. Antes, eu teria entrado no jogo, alimentado a história e saído dali mais tenso. Só que eu estava com a semana inteira na cabeça. Eu respondi: “Quem disse? Foi alguém de dentro ou é boato?”
Marcelo deu de ombros: “Ah, ouvi por aí.” Eu respirei. Eu não queria soar chato, mas eu também não queria virar antena de pânico. Eu falei: “Então, por enquanto, isso não me ajuda. Se eu ouvir algo oficial, eu te falo. Mas eu prefiro não repetir ‘disseram que’, porque isso só aumenta ansiedade.”
Ele ficou meio sem graça e disse: “Tá, foi mal. Eu só pensei em te avisar.” Eu suavizei: “Eu sei. E eu agradeço. Só que aviso bom vem com fonte. Senão vira fumaça.” A frase saiu simples e ele entendeu. A gente mudou de assunto e começou a falar de coisa boba: filme, comida, a padaria do bairro.
Na volta pra casa, eu pensei como a língua ensina ética. Quando eu digo “disseram que”, eu espalho algo sem responsabilidade. Quando eu digo “fulano me contou” ou “o RH comunicou”, eu assumo o peso do que eu falo. Portanto, o jeito que eu construo a frase muda o tamanho do medo que eu espalho.
Em casa, eu mandei uma mensagem pro Rafa: “Hoje eu bloqueei um ‘disseram que’.” Ele respondeu: “Boa. Menos nuvem, mais chão.” Eu ri. Era isso. Menos nuvem, mais chão.
“They said” is almost nobody
On Saturday, I met Marcelo for a quick coffee. We’d been good since the “making things clear” talk, and I wanted to keep the friendship light. But ten minutes after sitting down, he dropped a familiar line: “They said there will be layoffs at your company.”
I felt anxiety rise as if someone had opened a faucet. “They said” is dangerous because it has no face. You can’t ask, you can’t check—you can only imagine. Before, I would have played along, fed the story, and left more tense. But I had the whole week in my head. I replied: “Who said that? Was it someone inside, or is it just rumor?”
Marcelo shrugged: “Ah, I heard it around.” I breathed. I didn’t want to sound annoying, but I also didn’t want to become an antenna for panic. I said: “Then for now, it doesn’t help me. If I hear something official, I’ll tell you. But I’d rather not repeat ‘they said,’ because it only increases anxiety.”
He looked a bit awkward and said: “Okay, my bad. I just thought I’d warn you.” I softened: “I know. And I appreciate it. But a good warning comes with a source. Otherwise it turns into smoke.” He understood. We changed the topic and talked about silly stuff: movies, food, the neighborhood bakery.
On the way home, I thought about how language teaches ethics. When I say “they said,” I spread something without responsibility. When I say “someone told me” or “HR communicated,” I take ownership of what I’m saying. Therefore, the way I build a sentence changes the amount of fear I spread.
At home, I texted Rafa: “Today I blocked a ‘they said’.” He replied: “Good. Less cloud, more ground.” I laughed. That was it. Less cloud, more ground.
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How to Use the Audio
Pay attention to the rhythm of indirect speech (“disseram que…”, “eu ouvi…”).
Vocabulary
- corte de pessoal – layoffs
- torneira – faucet
- boato – rumor
- checar – to check/verify
- antenna – antenna (figurative)
- fonte – source
- fumaça – smoke (figurative)
- sem graça – awkward
- oficial – official
- espalhar – to spread
Grammar
1) Sujeito indefinido (“disseram que…”, “falaram que…”) e efeito
Construções com sujeito indefinido podem esconder a fonte e criar ambiguidade (“disseram que…”).
Em conversas, pedir “quem disse?” é uma forma de trazer sujeito e tornar a informação verificável.
2) Conector conclusivo (“portanto”)
“Portanto” pode introduzir consequência/conclusão e é comum para encadear raciocínio de forma clara.
No texto, “portanto” amarra a ideia ética: frase sem sujeito espalha medo sem responsabilidade.
Idiomatic Expressions
- ouvi por aí – I heard it around
- virar antena – become an antenna (spread worry)
- virar fumaça – turn into smoke (be vague)
- menos nuvem, mais chão – less cloud, more ground
- tá, foi mal – okay, my bad
Cultural Insights
- Boato em conversa informal
“Disseram que…” é fórmula comum para fofoca/boato; pedir fonte costuma ser visto como postura responsável.
10 Questions
- Onde o narrador encontra Marcelo? (resposta)
- Qual frase Marcelo usa? (resposta)
- Como o narrador reage por dentro? (resposta)
- O que ele pergunta para checar? (resposta)
- Qual é a resposta de Marcelo? (resposta)
- Qual limite o narrador coloca? (resposta)
- Como Marcelo se sente? (resposta)
- O que o narrador diz sobre aviso bom? (resposta)
- Que conector ele usa ao refletir? (resposta)
- Qual frase Rafa manda? (resposta)
Multiple Choice
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True or False
- Marcelo traz uma informação sem fonte clara. (resposta)
- O narrador entra no pânico e espalha para todo mundo. (resposta)
- Ele pede fonte para transformar boato em algo verificável. (resposta)
- Marcelo reage com raiva. (resposta)
- O narrador usa “portanto” para concluir uma reflexão. (resposta)
- Rafa reforça a ideia de “menos nuvem, mais chão”. (resposta)
Retell the Story
Reescreva a história. Inclua uma frase com “disseram que…” e depois mostre como você transformaria isso em algo verificável (com fonte/sujeito). Use “portanto” para concluir.



