Na sexta, ele aprende a usar o “se” impessoal/passivador (“vende-se”, “resolve-se”) para soar natural e evitar repetição, mas sem virar fuga de responsabilidade.
LEVEL/WORDCOUNT: B2 / 520 words
Resolve-se? Resolve-se onde?
Na sexta-feira, eu saí para almoçar perto do escritório e passei por uma vitrine com um cartaz enorme: “Aluga-se sala.” Eu parei por dois segundos, não porque eu queria alugar, mas porque eu estava com a semana inteira na cabeça. “Aluga-se” era exatamente o tipo de frase que eu vinha estudando sem perceber: alguém faz, mas ninguém aparece. A ação acontece e o agente some.
De volta ao trabalho, eu precisei escrever um aviso no canal do time sobre um procedimento: quando o cliente pede mudança, a gente abre um ticket antes de mexer no escopo. Eu comecei a digitar: “Nós abrimos um ticket…” e achei repetitivo. Aí veio a tentação: “Abre-se um ticket…” pronto, formal, bonito, impessoal. Eu usei, mas com cuidado: “Quando houver mudança de escopo, abre-se um ticket antes de iniciar ajustes.”
A Ana reagiu com um joinha. O Bruno escreveu: “Boa. Assim fica claro.” E eu senti que aquela estrutura tinha uma vantagem: ela parecia regra de manual, não bronca para alguém. Só que, logo em seguida, veio um teste. Um cliente apareceu pedindo um ajuste “rapidinho”, e a mensagem no chat do projeto veio assim: “Resolve-se isso hoje?”
Eu ri por dentro. “Resolve-se” parecia mágico: como se a solução brotasse do chão. Eu respondi: “Dá pra resolver, sim. Eu resolvo hoje se a gente abrir o ticket agora e tirar X da minha lista.” Foi quase automático: eu aceitei o “se” impessoal para falar de regra, mas usei “eu” para falar de responsabilidade. Eu estava aprendendo a combinar os dois sem virar fumaça.
No fim do dia, eu vi a diferença: impessoal serve para processo; pessoal serve para compromisso. E, se eu misturo certo, eu fico mais claro sem ficar pesado. Eu fechei o notebook com uma ideia simples: não é proibido usar frases impessoais. O perigo é usá-las para sumir.
“It gets solved”? Solved where?
On Friday, I went out for lunch near the office and passed a storefront with a big sign: “Room for rent” (Aluga-se sala). I stopped for a couple seconds—not because I wanted to rent it, but because the whole week was in my head. “Aluga-se” was exactly the type of sentence I’d been studying without realizing it: someone does it, but nobody shows up. The action happens and the agent disappears.
Back at work, I needed to write a notice in the team channel about a procedure: when the client requests a change, we open a ticket before changing scope. I started typing “We open a ticket…” and it felt repetitive. Then came the temptation: “A ticket is opened…” clean, formal, impersonal. I used it, but carefully: “When there is a scope change, a ticket is opened before starting adjustments.”
Ana reacted with a thumbs-up. Bruno wrote: “Good. This makes it clear.” I felt that structure had an advantage: it sounded like a manual rule, not a scolding for someone. But then a test came. A client showed up asking for a “quick” fix, and the message in the project chat came like this: “Can this be solved today?” (Resolve-se isso hoje?)
I laughed inside. “Resolve-se” sounded magical, as if the solution would grow from the floor. I replied: “Yes, it can be solved. I’ll solve it today if we open the ticket now and remove X from my list.” It was almost automatic: I accepted the impersonal “se” to talk about rules, but I used “I” to talk about responsibility. I was learning to combine the two without becoming smoke.
By the end of the day, I saw the difference: impersonal works for process; personal works for commitment. And if I mix them well, I become clearer without becoming heavy. I closed my laptop with a simple idea: impersonal phrases aren’t forbidden. The danger is using them to disappear.
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How to Use the Audio
Practice reading short “rule sentences” with flat, neutral intonation.
Vocabulary
- vitrine – storefront/window
- cartaz – sign/poster
- aluga-se – for rent (impersonal “se”)
- procedimento – procedure
- escopo – scope
- ticket – ticket
- bronca – scolding
- teste – test
- mágico – magical (figurative)
- compromisso – commitment
Grammar
1) “Se” impessoal / pronome apassivador
O “se” pode ser usado para indicar agente indefinido e criar construções impessoais; isso é comum em avisos e placas (“aluga-se”).
Em muitos casos, essa estrutura pode ter sentido parecido com a voz passiva, focando na ação em vez de quem faz.
2) Alternar regra e compromisso
O texto mostra um uso pragmático: impessoal para regra (“abre-se um ticket”) e pessoal para entrega (“eu resolvo hoje”).
Essa alternância ajuda a manter tom neutro sem perder responsabilidade.
Idiomatic Expressions
- rapidinho – very quick (often “not that quick”)
- dá pra resolver – it’s doable / we can solve it
- brota do chão – grows from the floor (figurative)
- virar fumaça – to become smoke (disappear)
- sumir – to disappear
Cultural Insights
- Placas com “-se”
No Brasil, é muito comum ver “vende-se”, “aluga-se”, “procura-se”, usando “se” para não nomear agente. - “Rapidinho” em trabalho
“Rapidinho” pode ser pedido carinhoso, mas também pode mascarar trabalho grande; negociar é normal.
10 Questions
- Que cartaz o narrador vê na rua? (resposta)
- Por que ele para para olhar? (resposta)
- Que procedimento ele precisa avisar ao time? (resposta)
- Qual frase impessoal ele usa? (resposta)
- Por que isso ajuda? (resposta)
- Qual mensagem do cliente aparece? (resposta)
- O que “resolve-se” sugere para ele? (resposta)
- Como ele responde de forma equilibrada? (resposta)
- Qual condição ele coloca? (resposta)
- Qual lição ele tira? (resposta)
Multiple Choice
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True or False
- O narrador decide nunca mais usar “se” em português. (resposta)
- “Abre-se um ticket” soa como regra neutra. (resposta)
- O cliente pede um ajuste “rapidinho”. (resposta)
- O narrador responde “resolve-se” e some. (resposta)
- Ele usa “eu resolvo” para assumir compromisso. (resposta)
- Ele conclui que o perigo é usar o impessoal para fugir. (resposta)
Retell the Story
Reescreva a história. Inclua uma frase com “-se” (ex.: “abre-se”, “aluga-se”) e outra com sujeito explícito (“eu resolvo…”). Explique por que cada uma combina com um contexto.



